A Morte do Eu
Existe uma mentira silenciosa crescendo dentro de muitos ambientes cristãos. A ideia de que é possível seguir Jesus sem morrer para si mesmo. Pessoas querem o consolo de Cristo, mas não a cruz de Cristo. Querem promessas sem rendição, crescimento sem poda, transformação sem quebrantamento. Desejam uma vida espiritual onde Jesus participe da existência, mas não governe completamente o coração. O problema é que Jesus nunca escondeu o preço do discipulado.
“Então Jesus disse aos seus discípulos: ‘Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.’”
Mateus 16:24A cruz não era um símbolo religioso decorativo. Era instrumento de execução. Quando Cristo falou sobre carregar a cruz, ninguém imaginou algo confortável. Eles imaginaram morte. O evangelho começa exatamente nesse ponto: no fim do domínio do “eu”.
Desde o Éden, o homem luta para ocupar o lugar de Deus. O pecado nunca foi apenas uma atitude errada. Foi independência interior. A serpente ofereceu algo sedutor a Adão e Eva: a possibilidade de viver sem total dependência do Senhor. O “eu” quer governar, controlar, decidir sozinho, preservar a própria vontade, receber reconhecimento e construir um reino pessoal. O coração humano transformou o ego em altar. Por isso a cruz é ofensiva. Ela não veio negociar com a carne nem aperfeiçoar o velho homem. Veio condená-lo. Muitos querem que Jesus cure suas dores, mas não querem que Ele toque seus ídolos. Querem paz preservando o orgulho. Querem intimidade com Deus sem abrir mão do controle da própria vida. Mas o Reino de Deus não é construído sobre homens preservados. É construído sobre homens rendidos.
“Sabemos que a nossa velha natureza humana foi crucificada com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sejamos mais escravos do pecado.”
Romanos 6:6Paulo escreve algo que destrói completamente o evangelho centrado no homem. O objetivo final da vida cristã não é uma versão mais educada, mais disciplinada ou mais religiosa de nós mesmos. O alvo é Cristo sendo formado em nós. O evangelho não existe para alimentar o ego espiritual, mas para conformar homens à imagem de Jesus. A carne até aceita frequentar cultos, cantar canções, conhecer versículos e desenvolver aparência espiritual, mas ela odeia ser crucificada. O velho homem sempre tentará sobreviver dentro da religiosidade. Às vezes aparece no orgulho espiritual, na necessidade de aplauso, na facilidade de se ofender, no desejo constante de controle ou na incapacidade de pedir perdão. Em muitos casos o homem ainda fala sobre Jesus enquanto continua secretamente construindo um trono para si mesmo.
“Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.”
Gálatas 2:20Por isso Deus frequentemente usa processos dolorosos. Existem coisas dentro de nós que só morrem na pressão. Certos níveis de orgulho não saem através de palavras bonitas. Algumas fortalezas só caem quando Deus quebra nossa autossuficiência. Jesus declarou que o grão de trigo precisa morrer para produzir fruto. Essa é uma das verdades mais difíceis do evangelho. Toda frutificação espiritual passa por algum tipo de morte interior. Deus não desperdiça desertos, humilhações, perdas ou esperas prolongadas. Muitas vezes Ele está usando essas estações para esmagar aquilo que ainda compete com Sua vontade dentro de nós.
“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.”
João 12:24A carne quer ser vista, mas Cristo escolheu servir. A carne quer subir, mas Jesus escolheu descer. A carne luta para preservar a própria vontade, mas no Getsêmani o Filho de Deus orou em completa rendição ao Pai.
“Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, e sim a tua.”
Lucas 22:42Filipenses declara que Cristo “a si mesmo se esvaziou”. O Rei se tornou servo. O Santo lavou pés. O Criador foi rejeitado pela criação e aceitou morrer numa cruz. Enquanto isso, muitos de nós ainda lutamos para morrer para o orgulho, para a vaidade e para a necessidade de reconhecimento.
"Não façam nada por interesse pessoal ou vaidade, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo, não tendo em vista somente os seus próprios interesses, mas também os dos outros. Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus"
Filipenses 2:3-5Talvez uma das maiores evidências de maturidade espiritual não esteja em quanto alguém aparece, mas em quanto Cristo aparece através dela. João Batista compreendeu isso profundamente quando declarou:
“É necessário que ele cresça e que eu diminua.”
João 3:30O Reino não pertence aos que se promovem, mas aos que se rendem. A morte do eu não significa destruição da identidade. Significa libertação da tirania da carne. Quanto mais o ego perde força, mais o Espírito governa. Quanto menos o homem ocupa o centro, mais Cristo reina. Existe vida depois da cruz. Existe liberdade depois da rendição. Existe paz quando paramos de lutar para sustentar nosso próprio trono. O homem quebrantado finalmente entende que não nasceu para ser o centro da própria existência, mas para refletir Jesus.
“Os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos.”
Gálatas 5:24No fim, essa é a grande pergunta do discipulado: quem está vivo dentro de você? O “eu” que insiste em governar ou Cristo que deseja reinar? Porque no evangelho verdadeiro não existem dois tronos no mesmo coração.
Você é um milagre!
Pedro Rocha Tavares
Equipe Jesus.net