Entre ouvir e ver: cuidado, escassez e escolhas na Guiné-Bissau
Na África Ocidental, e de forma muito concreta na Guiné-Bissau, desafios relacionados à insegurança alimentar e à proteção de crianças ainda fazem parte do cotidiano de muitas famílias.
No dia anterior, uma avó me contou que, em sua casa, a alimentação estava reduzida a uma refeição por dia. Acrescentou que, sempre que possível, guardava uma pequena porção de comida para que o neto, Abdel — um menino cadeirante — pudesse se alimentar duas vezes.
Esse cuidado não acontece por acaso.
Abdel foi deixado pela mãe, e o pai não assume sua responsabilidade. Em contextos como esse, crianças com deficiência estão entre as mais vulneráveis e, não raramente, acabam sendo negligenciadas ou abandonadas.
Era uma informação difícil, mas ainda abstrata.
No dia seguinte, ao visitá-los novamente e levar alguns alimentos, tive a oportunidade de ver, na prática, o que aquelas palavras significavam.
A avó estava sentada sobre uma bacia virada, trabalhando na confecção de vassouras artesanais — uma das formas que encontrou para gerar alguma renda. Em determinado momento, levantou-se, retirou a bacia e mostrou o que havia embaixo: uma pequena tigela com comida.
Era exatamente o que havia descrito no dia anterior.
A cena revelou algo que vai além da escassez. Mostrou como, dentro da falta, existem decisões claras sobre quem precisa ser protegido com mais urgência.
Garantir que Abdel coma duas vezes por dia não é fruto de sobra, mas de prioridade. É uma escolha consciente, feita por alguém que, mesmo com recursos extremamente limitados, decidiu não abandoná-lo.
É importante dizer: não há nada de romantizável nessa realidade. A fome e o abandono são expressões de desigualdade e exigem respostas concretas.
Ao mesmo tempo, a cena evidencia um tipo de cuidado que muitas vezes passa despercebido. Em um contexto em que algumas crianças com deficiência são deixadas à margem, essa avó faz o movimento oposto: ela protege, organiza e sustenta.
A diferença entre ouvir e ver essa realidade é significativa. Quando ouvimos, compreendemos de forma distante. Quando vemos, somos confrontados com a urgência dessas histórias.
Mais do que provocar emoção, experiências como essa nos convidam à responsabilidade. Elas nos lembram que, por trás da escassez, existem decisões silenciosas e, às vezes, profundamente corajosas, que garantem que uma vida continue sendo cuidada.
Por Deisi Wommer Scherer, missionária, educadora e líder da ONG Sementes de Amores na Guiné-Bissau